terça-feira, 5 de junho de 2012

5ª semana

Estou na minha 5ª semana. Parece que já nada é novo. O script já não é necessário (okay, talvez de vez em quando ainda lhe deite o olho apenas como suporte para algo que já tenho na ponta da língua mas que às vez ainda teima em sair), o programa já não me engana e várias manhas já me foram explicadas. N vezes de formas diferentes. O ambiente já esta menos pesado, já parece (parece) que fazemos parte da equipa. A pergunta "quantas fizeste?" mantêm-se por parte dos colegas e dos familiares e todos nos tentam animar quando não corre bem. Uns roiem-se de orgulho ou inveja enquanto outros apenas para nos acalentarem o coração com promessas de que amanhã será melhor. Os dias passam e as realidades com que entramos em contacto diariamente já não nos deviam doer. Mas doiem. E muito. Connosco ficam histórias de quem tem o seu sofrimento e precisa de o partilhar. Nem que seja nos 5 minutos que a chamada dura. E por vezes esses 5 minutos (às vezes 15, quando não há capacidade para terminar a chamada de alguém que ansiou por este momento) são exactamente para isso. Terapia. Terapia para alguém que não tem com quem partilhar as suas doenças, as suas mágoas, as suas misérias. E em que miséria de pessoas nos tornámos se não há alguém que nos ouça neste mundo cada vez mais sobrepovoado mas sem morais nem éticas. Partilhar com um estranho sempre pensei que se pagasse caro e deitado numa poltrona. Neste caso, é com uma pessoa sem rosto, que ligou para vender um qualquer produto de que muito ouvimos falar e que muito promete, que acabamos por falar de vidas que não se conhece, não se ouve falar e que se tenta a todo custo abafar. E com elas durmo e sonho e espero no dia seguinte acordar com um sorriso nos lábios, para que esse mesmo sorriso se ouça do outro lado do telefone, quando digo "Bom dia está a falar com... de... Estou a falar com ...? Como está?" 


E aqui começa mais um dia de terapias incessantes. Para os outros.

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